A Antártida, continente de gelo e mistérios, está no centro de uma preocupação crescente para a ciência global. Corredores invisíveis de umidade e calor, conhecidos como rios atmosféricos, estão impulsionando um degelo acelerado no setor oeste e na Península Antártica, com consequências que podem se estender até as cidades costeiras do Brasil. A pesquisa, apresentada por cientistas brasileiros na 78ª Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), revela um cenário de mudanças climáticas mais rápidas e impactantes do que o previsto.
O fenômeno, que transporta massas de ar tropical para as regiões polares, é responsável por uma parcela significativa do aquecimento no continente gelado. A aceleração desse processo não apenas ameaça a estabilidade das geleiras antárticas, mas também projeta uma elevação substancial do nível dos oceanos, colocando em risco populações e infraestruturas em diversas partes do mundo, incluindo o litoral brasileiro, um dos mais vulneráveis a esse cenário.
Rios atmosféricos: corredores de umidade e calor
Os rios atmosféricos são sistemas complexos que atuam como verdadeiras artérias invisíveis na atmosfera terrestre, canalizando calor e umidade das regiões tropicais em direção aos polos. Segundo Heitor Evangelista da Silva, professor da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e coordenador de um projeto de monitoramento desses fenômenos, cerca de 90% de toda a umidade transportada dos trópicos para as áreas polares é resultado da ação desses rios.
A pesquisa liderada por Silva, cujos dados foram apresentados em 31 de julho de 2026, destaca que esses sistemas não se limitam às bordas do continente, mas penetram profundamente no interior da Antártida. A umidade e o calor trazidos por esses rios são fatores cruciais para as ondas de calor que atingem o continente, alterando drasticamente seu equilíbrio climático.
Avanço inédito no interior do continente
O monitoramento realizado pela estação avançada Criosfera 1, o primeiro laboratório científico remoto e autônomo do Brasil na Antártida, instalado em 2012 na latitude 84 Sul e a 1.200 metros de altitude, tem fornecido dados alarmantes. As informações coletadas e calibradas com modelos climáticos indicam um aumento vertiginoso na frequência de ondas de calor associadas aos rios atmosféricos no interior antártico.
Se no início do monitoramento esses eventos correspondiam a 25% dos episódios de aquecimento, atualmente eles respondem por quase 80% das ondas de calor detectadas no centro da Antártida. Em 2022, na estação Concórdia, um desses eventos provocou um aumento súbito de temperatura de 4°C, algo inédito nos registros históricos meteorológicos da região. A constatação de temperaturas de até -3°C na latitude 84 Sul, muito próximas ao ponto de derretimento do gelo (-1°C), sugere que o derretimento superficial pode se tornar comum em áreas remotas se esses eventos se intensificarem no verão.
Pontos de inflexão e o risco das geleiras
O impacto mais crítico dessa dinâmica recai sobre o setor oeste da Antártida, uma região considerada um dos pontos de inflexão mais sensíveis do sistema climático global. Geleiras como Thwaites e Pine Island, que funcionam como ‘âncoras’ para o gelo continental, estão exibindo fluxos incomuns de umidade e superfícies altamente vulneráveis ao derretimento. A perda dessas geleiras frontais é vista como um fator crítico para a desestabilização de vastas massas de gelo interiores.
O degelo nessas regiões ocorre de forma silenciosa e de ‘baixo para cima’, impulsionado pela água oceânica mais quente que mina a estrutura de sustentação das geleiras a partir de sua base. Estimativas apontam que o colapso da geleira Thwaites poderia elevar o nível do mar global em 63 centímetros, chegando a 1 metro se somado ao derretimento da Pine Island, cenário com graves implicações para as cidades costeiras em todo o mundo, incluindo as dez cidades portuárias brasileiras com mais de 1 milhão de habitantes expostas à subida do mar.
Amplificação Antártica e o ciclo vicioso
As conclusões do projeto brasileiro indicam uma mudança estrutural na Antártida, similar à observada no Ártico. Desde 2015, o gelo marinho ao redor do continente tem apresentado uma queda brutal, equivalente a duas vezes a área da Groenlândia em perda de massa. Essa diminuição altera o albedo, a capacidade da superfície branca do gelo de refletir a luz solar. Com menos gelo, a água escura do oceano absorve mais calor, criando um ciclo vicioso de aquecimento acelerado, um fenômeno conhecido como Amplificação Antártica.
A contribuição brasileira para a ciência do clima
O monitoramento contínuo realizado pelo Brasil é de valor inestimável, pois o Criosfera 1 é a única estação geofísica automática operando no centro do continente antártico. Os dados coletados são fundamentais para calibrar e corrigir modelos climáticos globais, como o ERA-5, que, segundo as observações em campo dos cientistas brasileiros, ainda subestimam as temperaturas extremas na região. Para avançar no entendimento dessas fronteiras climáticas, o projeto, que conta com o apoio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e do Centro Espacial Goddard da Nasa, planeja expandir sua tecnologia e monitoramento contínuo.
A urgência de compreender e mitigar os efeitos do degelo antártico nunca foi tão evidente. As descobertas brasileiras reforçam a necessidade de ações globais coordenadas para enfrentar as mudanças climáticas e proteger o futuro do planeta. Para continuar acompanhando as últimas notícias sobre ciência, meio ambiente e os impactos desses fenômenos no Brasil e no mundo, acesse o M1 Metrópole e mantenha-se informado com conteúdo relevante e aprofundado.