PUBLICIDADE

Ativistas denunciam impacto de política dos EUA em conferência de Aids no Rio

Ativistas denunciam impacto de política dos EUA em conferência de Aids no Rio
Felipe Varanda/IAS

A Conferência Internacional de Aids, realizada no Rio de Janeiro, foi palco de um intenso protesto que interrompeu um evento oficial do governo dos Estados Unidos. No domingo, 26 de julho de 2026, ativistas levantaram suas vozes para denunciar o que consideram retrocessos na política global de saúde americana, especialmente em relação ao combate ao HIV e à continuidade do programa Pepfar.

O incidente sublinhou a crescente tensão entre a comunidade global de saúde e as diretrizes da “America First Global Health Strategy”, que, segundo os manifestantes, ameaçam décadas de progresso na luta contra a epidemia de Aids. A intervenção direta dos ativistas trouxe à tona questões cruciais sobre financiamento, inclusão e a abordagem científica na saúde pública internacional, reverberando a preocupação com o futuro da resposta global ao HIV.

Protesto interrompe apresentação da estratégia americana

A interrupção ocorreu durante a apresentação da nova estratégia de saúde global americana pelo coordenador interino de Aids global dos EUA, Jeff Graham. Ativistas tomaram o microfone, ecoando gritos como “vocês mentem, pessoas morrem” e “restaurem o Pepfar”, em uma clara demonstração de descontentamento com as políticas vigentes e seus impactos.

Asia Russell, da organização HealthGAP, assumiu a palavra para criticar as “interrupções mortais” na programação do Pepfar e na ajuda global de saúde. Ela enfatizou que a comunidade não permitiria que os fatos fossem “apagados” por uma “agenda anticiência, anti-LGBTQ e antiparticipação”, destacando a preocupação com a marginalização de grupos vulneráveis e a desconsideração de evidências científicas.

A “America First Global Health Strategy” tem sido vista por muitos como uma abordagem que prioriza interesses nacionais em detrimento de uma visão mais abrangente e colaborativa da saúde global. Essa mudança de foco gera apreensão, especialmente em um cenário de doenças transfronteiriças como o HIV, onde a cooperação internacional e a solidariedade entre nações são fundamentais para o sucesso das iniciativas de controle e erradicação.

Contradições e o papel das populações-chave

A controvérsia ganhou ainda mais peso quando Rebecca Bunnell, médica e vice-coordenadora da implementação do Pepfar, reconheceu publicamente as falhas da abordagem atual. Em resposta a uma pergunta sobre a exclusão de “populações-chave” da nova estratégia — que agora se concentra prioritariamente na prevenção da transmissão de mãe para bebê — Bunnell foi categórica.

“Não podemos esquecer nenhum grupo, porque se esquecermos, vamos fracassar”, afirmou. “Não conseguiremos deter a epidemia se não tivermos serviços para todas as pessoas em risco.” Essa declaração expôs uma contradição central: enquanto a política oficial restringe o foco, a liderança técnica admite que a exclusão de grupos como trabalhadoras sexuais, homens que fazem sexo com homens e pessoas que usam drogas injetáveis compromete o objetivo final de conter a epidemia de Aids.

Historicamente, o combate ao HIV/Aids demonstrou que a inclusão e o acesso universal a serviços de prevenção, tratamento e cuidado são essenciais. As populações-chave são frequentemente as mais vulneráveis e as que enfrentam maiores barreiras sociais e estruturais para acessar a saúde. Negligenciá-las não apenas viola princípios de direitos humanos, mas também cria lacunas que permitem a persistência e a disseminação do vírus, minando os esforços globais e o investimento de anos em saúde pública.

O impacto devastador dos cortes no Pepfar

O protesto e as declarações de Bunnell ocorrem em um contexto de preocupação crescente, amplificada pelos resultados do Pepfar Pulse Study. Este levantamento, conduzido pela amfAR (Foundation for Aids Research) e apresentado pela IAS (International Aids Society), revelou o impacto real das mudanças promovidas pelo governo de Donald Trump no programa.

O estudo identificou o fechamento de 1.714 unidades de serviço de HIV em todo o mundo, com mais de mil delas sendo estabelecimentos públicos de saúde. Além disso, mais de um em cada cinco (21%) parceiros que ofereciam tratamento de HIV suspenderam permanentemente pelo menos uma atividade de cuidado clínico relacionada à doença. Esses números alarmantes indicam um retrocesso significativo na infraestrutura de combate à Aids e na capacidade de resposta a crises de saúde.

O Pepfar (Plano de Emergência do Presidente dos EUA para o Alívio da Aids), criado em 2003, é um dos maiores programas de saúde global da história, responsável por salvar milhões de vidas e transformar a paisagem da Aids em muitos países em desenvolvimento. Seus cortes e redirecionamentos têm consequências diretas na capacidade de nações como a Nigéria de manter seus programas de controle do HIV, conforme confirmado pela diretora-geral da Agência Nacional de Controle da Aids da Nigéria, Temitope Ilori. A redução do apoio pode levar ao aumento de novas infecções e mortes, revertendo anos de conquistas duramente alcançadas e colocando em risco a saúde de comunidades inteiras.

Para o M1 Metrópole, é fundamental acompanhar de perto os desdobramentos dessas políticas e seus impactos na saúde global. Continuaremos a trazer informações relevantes e contextualizadas sobre a Conferência Internacional de Aids e outros temas cruciais que afetam a vida de milhões de pessoas. Mantenha-se informado com a nossa cobertura aprofundada e o compromisso com a informação de qualidade, que você encontra diariamente em nosso portal.

Leia mais

PUBLICIDADE