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Avanço de terapias com psicodélicos no Brasil mira acesso gratuito pelo SUS

Avanço de terapias com psicodélicos no Brasil mira acesso gratuito pelo SUS
Reprodução Folha

Uma iniciativa pioneira no Brasil busca revolucionar o tratamento da depressão resistente, mirando a inclusão de terapias com psicodélicos no Sistema Único de Saúde (SUS). Liderado pelo Instituto do Cérebro (ICe) e pelo Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL), ambos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o projeto avança em ensaios clínicos com a dimetiltriptamina (DMT), uma substância psicodélica clássica.

Essa abordagem contraria a lógica da indústria farmacêutica global, que investe bilhões em tratamentos patenteados e de alto custo. O objetivo das instituições públicas brasileiras é garantir o acesso gratuito a esses compostos para todos os cidadãos, um modelo que ecoa grandes conquistas da saúde coletiva no país.

Avanço da pesquisa com psicodélicos na UFRN

O teste clínico em andamento é um passo fundamental para a meta de ofertar terapias psicodélicas a todos os brasileiros. Ele se concentra na inalação de DMT, substância encontrada naturalmente na ayahuasca e na raiz da jurema-preta, para tratar casos de depressão que não respondem aos medicamentos tradicionais.

Em 2025, um estudo de fase 2a já demonstrou resultados promissores com 14 pacientes, registrando uma taxa de resposta de 85% e remissão em 57% dos casos após apenas uma semana. Atualmente, o projeto deslancha para a fase 2b, um ensaio multicêntrico controlado por placebo, que busca recrutar até 140 voluntários em diversas capitais brasileiras, incluindo Natal, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Fortaleza.

Este teste representa um marco na pesquisa psicodélica nacional e conta com o apoio financeiro da Finep, órgão federal de fomento a projetos, que aprovou R$ 6 milhões para o ICe-UFRN. O sucesso desta etapa é crucial para a progressão à fase 3, que envolverá centenas de pacientes, demandará investimentos milionários e servirá de base para um pedido de licença da terapia junto a agências reguladoras como a Anvisa no Brasil e a FDA nos Estados Unidos.

Contraste de modelos: acesso público versus lucro bilionário

A iniciativa brasileira se destaca em um cenário global dominado por grandes corporações farmacêuticas. Recentemente, a Eli Lilly, uma das maiores farmacêuticas do mundo, adquiriu a empresa AtaiBeckley por um valor que pode chegar a US$ 3,8 bilhões (cerca de R$ 19,4 bilhões). A AtaiBeckley estava em fase 3 de testes com outro psicodélico antidepressivo inalável, o 5-MeO-DMT.

Essa transação bilionária sublinha a disparidade entre os modelos. Enquanto empresas como a Eli Lilly buscam proteger suas inovações com patentes e vender tratamentos a preços elevados, as instituições públicas brasileiras, como a UFRN, visam um modelo de saúde coletiva, onde o acesso aos compostos seria gratuito via SUS. A propriedade intelectual e o lucro são os pilares do modelo privado, em contraste com a democratização do acesso à saúde que move a pesquisa pública.

O legado do SUS e a promessa das terapias psicodélicas

O Brasil possui um histórico de sucesso na implementação de políticas de saúde coletiva. Exemplos notáveis incluem a quebra de patentes de medicamentos contra o HIV, as robustas campanhas de vacinação que por décadas foram motivo de orgulho nacional, e o Programa Saúde da Família, que leva atendimento básico a milhões de brasileiros. Esses precedentes demonstram a capacidade do país de priorizar a saúde pública sobre interesses comerciais.

A integração das terapias psicodélicas ao SUS poderia seguir essa trajetória, oferecendo uma alternativa inovadora e humanizada, especialmente se combinada com o atendimento comunitário dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Essa visão é defendida pela Associação Psicodélica do Brasil (APB), que lançou a campanha #PsicodélicosNoSUS, clamando por um sistema que garanta o acesso a esses tratamentos.

O país tem condições favoráveis para desenvolver um modelo local que se contraponha ao paradigma farmacológico-capitalista, que muitas vezes resulta na gentrificação de substâncias naturais. Essas substâncias, como os cogumelos “mágicos” e as plantas da ayahuasca e da jurema, foram introduzidas à medicina por povos indígenas, cuja sabedoria ancestral precisa ser reconhecida e integrada.

Superando barreiras e preconceitos

Apesar do crescente interesse de psicólogos, ainda persistem preconceitos significativos entre psiquiatras e outros profissionais de saúde, bem como na classe política e no senso comum da população. A crença infundada de que psicodélicos causam vício é um dos maiores obstáculos, desconsiderando evidências científicas que apontam para o potencial terapêutico dessas substâncias quando administradas em contextos controlados.

Para que a “virada psicodélica” se concretize no Brasil, será necessário um movimento amplo e abrangente, similar ao que levou à legalização do uso religioso da ayahuasca. Este novo movimento, contudo, não pode deixar de fora os povos originários, que são os guardiões desse conhecimento ancestral. É imperativo estabelecer um diálogo respeitoso e colaborativo com eles, garantindo que a pesquisa e a aplicação terapêutica dos psicodélicos honrem suas origens e tradições. Para mais informações sobre o tema, você pode consultar o trabalho do colunista Marcelo Leite, autor de livros como “Psiconautas – Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira”, disponível em Folha de S.Paulo.

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