PUBLICIDADE

Consciência e saúde: brasileiros identificam riscos, mas resistem a medidas estatais de prevenção

Consciência e saúde: brasileiros identificam riscos, mas resistem a medidas estatais de prevenção
9.jul.20/Folhapress

Uma pesquisa Datafolha recente trouxe à tona uma complexa dualidade na percepção dos brasileiros sobre a saúde pública. Embora a vasta maioria da população associe claramente hábitos nocivos, como tabagismo, consumo excessivo de álcool e alimentação rica em ultraprocessados, ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), há uma notável resistência em apoiar ações do Estado para mitigar esses riscos.

O levantamento, encomendado pela ACT Promoção da Saúde e realizado em maio último, entrevistou cerca de 4.000 pessoas em 117 municípios das cinco regiões do país. Os resultados, com margem de erro máxima de dois pontos percentuais, revelam um cenário onde o conhecimento sobre os perigos à saúde é alto, mas a aceitação de intervenções governamentais para enfrentá-los permanece baixa.

A dualidade entre conhecimento e ação

Os dados da pesquisa são contundentes ao demonstrar o reconhecimento dos brasileiros sobre os fatores de risco para DCNTs. Impressionantes 92% dos entrevistados conectam o tabagismo, incluindo o uso de cigarros eletrônicos, a essas enfermidades. O consumo exagerado de bebidas alcoólicas é apontado por 83%, enquanto a alimentação baseada em produtos ultraprocessados é associada por 80% da população. O sedentarismo e a poluição do ar também são reconhecidos como fatores de risco por 78% dos participantes.

No entanto, quando a questão se volta para as estratégias mais eficazes de combate a essas doenças, a preferência recai sobre a responsabilidade individual e a informação. Cerca de 56% defendem que as empresas expliquem com clareza os riscos de seus produtos, e 53% citam campanhas de informação em mídias diversas. Mais da metade, 52%, acredita que “cada pessoa deve tomar os cuidados para não desenvolver essas doenças”. Em contraste, apenas 33% dos entrevistados apoiam a adoção de medidas legais, como regulamentações sobre comercialização, rotulagem e tributação desses produtos.

A responsabilidade individual em xeque

Para Paula Johns, diretora-executiva da ACT Promoção da Saúde, os resultados da pesquisa refletem uma tendência preocupante de focar a responsabilidade pela saúde exclusivamente no indivíduo. Essa visão, segundo ela, ignora o contexto mais amplo em que as escolhas são feitas, um ambiente frequentemente moldado por agressivas estratégias de marketing, poderosos interesses econômicos e a ausência de uma regulação eficaz.

Essa percepção pública dificulta a compreensão do papel fundamental das políticas públicas na prevenção de doenças. Johns argumenta que é irreal esperar que a indústria, por iniciativa própria, informe plenamente os riscos de seus produtos. Medidas como a rotulagem frontal clara, restrições à publicidade e a tributação de produtos nocivos são essenciais e devem ser obrigatórias, baseadas em sólidas evidências científicas, para criar ambientes mais propícios a escolhas saudáveis.

O papel das políticas públicas na prevenção

As doenças crônicas não transmissíveis, como câncer, diabetes e problemas cardiovasculares, representam um dos maiores desafios para a saúde pública global e brasileira. Elas são a principal causa de morte e incapacidade no país, impondo uma carga significativa sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) e a economia nacional. A prevenção, portanto, é uma estratégia custo-efetiva e humanitária.

Políticas públicas robustas, que vão além da mera informação, são cruciais para reverter esse cenário. Exemplos incluem a regulamentação da publicidade de alimentos ultraprocessados para crianças, a implementação de impostos sobre bebidas açucaradas e a exigência de rotulagem nutricional clara e de fácil compreensão. Tais medidas não visam restringir a liberdade individual, mas sim equilibrar o jogo, protegendo a saúde coletiva e garantindo que as escolhas saudáveis sejam as mais fáceis e acessíveis.

Desafios e oportunidades para a saúde brasileira

A pesquisa Datafolha evidencia uma oportunidade para ampliar o debate sobre a importância da regulação na saúde pública brasileira. Embora haja uma resistência inicial a intervenções estatais, a mesma pesquisa aponta para uma contradição interessante: 77% dos entrevistados afirmaram que não votariam em candidatos influenciados pelas indústrias de produtos considerados nocivos. Isso sugere que, apesar da relutância em aceitar medidas regulatórias diretas, há um reconhecimento implícito da influência negativa dessas indústrias.

É fundamental que a sociedade e os formuladores de políticas públicas compreendam que a saúde não é apenas uma questão de escolha pessoal, mas também de ambiente e contexto. A promoção de ambientes mais saudáveis, através de políticas baseadas em evidências, pode empoderar os cidadãos a fazerem escolhas que beneficiem sua saúde a longo prazo, reduzindo a incidência de DCNTs e aliviando a pressão sobre o sistema de saúde. Para mais informações sobre iniciativas de promoção da saúde, acesse o site da ACT Promoção da Saúde.

O M1 Metrópole continua acompanhando de perto os desdobramentos e debates sobre saúde pública no Brasil, trazendo análises aprofundadas e informações relevantes para que você esteja sempre bem informado. Acompanhe nossas próximas publicações para entender como esses temas impactam seu dia a dia e a sociedade.

Leia mais

PUBLICIDADE