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Suicídio em jovens: estudo detalha fatores de risco e caminhos para prevenção

Suicídio em jovens: estudo detalha fatores de risco e caminhos para prevenção
Reprodução Folha

Uma pesquisa brasileira de longo prazo lançou luz sobre os complexos fatores associados às tentativas de suicídio entre crianças e adolescentes, um tema de crescente preocupação global. Publicado na renomada revista The Lancet Regional Health – Americas, o estudo acompanhou mais de 2.000 jovens ao longo de 15 anos, identificando preditores cruciais que podem guiar estratégias de prevenção mais eficazes e direcionadas. Os achados sublinham a importância de uma abordagem multifacetada para a saúde mental juvenil, considerando aspectos individuais, familiares e sociais.

A investigação, coordenada por Rodolfo Furlan Damiano, integrante do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), buscou desvendar não apenas a incidência das tentativas de suicídio, mas também a idade em que ocorrem pela primeira vez e a frequência desses episódios. Compreender esses antecedentes desenvolvimentais é fundamental, especialmente em países de baixa e média renda, onde o tema ainda é pouco explorado em profundidade. As tentativas de suicídio na infância e adolescência são, segundo Damiano, o mais forte preditor de morte por suicídio, o que ressalta a urgência de intervenções.

Preditores Chave para Tentativas de Suicídio: Gênero, Traumas e Histórico Familiar

Os cientistas identificaram uma série de fatores que se destacam como preditores significativos. Ser do sexo feminino, por exemplo, emergiu como um dos principais, com meninas apresentando um risco cerca de três vezes maior de tentativas de suicídio do que meninos. Este dado reforça a necessidade de programas de apoio e conscientização específicos para as jovens, considerando as pressões sociais e emocionais que podem enfrentar.

Outro elemento de grande peso são os traumas na infância, especialmente o bullying e os abusos físicos. Estes fatores mostraram-se relevantes para a incidência, o momento de início e o número de tentativas. A pesquisa aponta que o bullying, por si só, foi responsável por 24% do risco, um número alarmante que exige uma resposta robusta das instituições de ensino e da sociedade em geral. A violência, em suas diversas formas, deixa marcas profundas que podem se manifestar em comportamentos autodestrutivos anos mais tarde.

O histórico familiar também desempenha um papel crítico. Ter um cuidador principal com histórico de comportamento suicida ou com transtornos internalizantes, como depressão, ansiedade, TOC e estresse pós-traumático, foi associado a uma maior incidência e a um início mais precoce das tentativas de suicídio nos jovens. A saúde mental dos cuidadores, portanto, não afeta apenas a eles próprios, mas se estende ao bem-estar das crianças e adolescentes sob sua responsabilidade, criando um ciclo que necessita ser quebrado.

Transtornos Comportamentais e Fatores Biológicos

Além dos traumas e do ambiente familiar, o estudo destacou a influência de transtornos do comportamento externalizantes, como o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e o transtorno de conduta. A presença dessas condições foi ligada à incidência e a um início mais precoce das tentativas de suicídio. Isso sugere que o diagnóstico e tratamento adequados desses transtornos na infância podem ser uma via importante para mitigar riscos futuros.

Fatores biológicos e genéticos também foram considerados. A predisposição genética para a depressão e o diabetes gestacional foram associados a uma maior frequência de tentativas de suicídio. Nos casos clinicamente mais graves, a predisposição genética para depressão, os traumas na infância e o uso materno de álcool na gestação foram os fatores mais significativos. Esses dados complexificam a compreensão do suicídio, mostrando que ele é resultado de uma interação intrincada entre vulnerabilidades genéticas, experiências de vida e o ambiente.

Ações Modificáveis e o Caminho para a Prevenção

Um dos pontos mais relevantes da pesquisa é a quantificação do impacto populacional dos “fatores de risco modificáveis”, ou seja, aquelas condições que podem ser alteradas por meio de intervenções. O histórico de tentativa de suicídio por parte do cuidador teve o maior peso, respondendo por 14,1% do total de tentativas observadas. Em seguida, os transtornos internalizantes do cuidador (11,6%) e os altos níveis de traumas na infância (11,5%) também se mostraram altamente impactantes.

Rodolfo Furlan Damiano enfatiza que “risco não é destino”. A existência desses fatores não condena uma criança ao suicídio, mas aponta para áreas onde a intervenção é possível e necessária. Entre as ações propostas pelo pesquisador estão a investigação de casos de suicídio na família e o cuidado com todo o núcleo familiar, não apenas com o indivíduo. Além disso, ele defende que o bullying e a violência sejam tratados como questões de saúde pública, com a integração de escolas e famílias em planos de prevenção. “Talvez a pergunta não seja quem vai tentar, mas o que podemos mudar antes”, reflete Damiano.

O estudo, que integra a Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC), um dos mais importantes do mundo sobre a origem genética e ambiental dos transtornos mentais, oferece um panorama detalhado e fundamental para a formulação de políticas públicas e programas de saúde mental. A colaboração entre diversas universidades brasileiras, como USP, Unifesp, UFRGS e Unicamp, reforça a capacidade científica do país em abordar temas complexos e urgentes.

Para aprofundar-se nos detalhes da pesquisa, o artigo completo pode ser acessado em The Lancet Regional Health – Americas. A compreensão desses fatores é um passo vital para construir uma sociedade mais atenta e protetora, capaz de oferecer suporte e esperança aos jovens em situação de vulnerabilidade. O M1 Metrópole segue comprometido em trazer informações relevantes e contextualizadas sobre saúde e bem-estar, convidando você a continuar acompanhando nossas análises e reportagens aprofundadas sobre os temas que impactam a vida em nossa comunidade e no mundo.

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