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Dor na inserção de DIU é 16 vezes maior do que o previsto pelo manual do SUS, aponta estudo

No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, o uso do DIU reduziu entre 2024 e 2025 - Gabriel Cabral/Folhapress - 17.set.21
No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, o uso do DIU reduziu entre 2024 e 2025 - Gabriel Cabral/Folhapress - 17.set.21

Um estudo recente, publicado no renomado periódico International Journal of Gynecology & Obstetrics, lança luz sobre uma realidade preocupante para milhares de mulheres brasileiras: a dor associada à inserção do DIU (dispositivo intrauterino) é significativamente subestimada pelas diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa revela que o desconforto sentido durante o procedimento é até 16 vezes maior do que o estimado pelo Manual Técnico do Ministério da Saúde, que orienta a prática clínica no país desde 2018.

Os achados desafiam a percepção de que a dor intensa na colocação do DIU seria um evento raro, posicionando-a como uma experiência comum e que exige uma revisão urgente das abordagens de manejo da dor no contexto da saúde pública.

A Realidade da Dor no Procedimento

A pesquisa, conduzida em um centro de referência em Campinas, São Paulo, analisou mais de 7.000 inserções de DIU e constatou que 81% delas foram acompanhadas de dor moderada a severa. Destas, 54% das pacientes relataram dor severa e 28%, dor moderada. Em uma escala de zero a dez, onde dez representa a pior dor imaginável, o escore mediano foi de sete.

Esses números contrastam drasticamente com a estimativa do Manual Técnico do Ministério da Saúde, que sugere que menos de 5% das mulheres sentiriam dor moderada ou aguda durante a inserção do método contraceptivo. A discrepância de 16 vezes entre a realidade observada e a orientação oficial levanta questões importantes sobre a adequação das diretrizes e o impacto na experiência das pacientes.

O estudo é uma análise transversal de prontuários de 6.974 mulheres com idades entre 18 e 45 anos, que realizaram a inserção do DIU no Ambulatório de Planejamento Familiar da Unicamp entre 2022 e 2024. Foram avaliadas 7.259 inserções, considerando que uma mesma paciente poderia ter passado pelo procedimento mais de uma vez no período. A dor foi mensurada imediatamente após a inserção, utilizando uma escala visual analógica de zero a dez.

Implicações para a Saúde da Mulher e Resposta Oficial

A subestimação da dor na inserção do DIU não é apenas uma questão de desconforto físico; ela pode ter implicações profundas na adesão ao método contraceptivo, na confiança das pacientes nos serviços de saúde e na percepção geral da saúde reprodutiva. A pesquisadora Ana Luiza Savi, uma das autoras do estudo e mestre pela London School of Hygiene and Tropical Medicine (Reino Unido), enfatiza que “a dor não é um evento raro, mas sim uma experiência comum”.

Diante dos resultados, o Ministério da Saúde foi procurado e informou que está em processo de revisão e atualização técnico-científica do manual. O objetivo é incorporar as novas evidências e, assim, atualizar as orientações aos profissionais do SUS, buscando alinhar as diretrizes com a realidade vivenciada pelas mulheres.

Contexto Nacional e Internacional das Diretrizes

A pesquisa de Campinas não é um caso isolado. Estudos brasileiros anteriores já haviam apontado taxas de dor moderada a severa na inserção do DIU variando entre 44% e 70%. A diferença nos percentuais observados em Campinas pode estar ligada, em parte, ao maior uso do DIU hormonal (Mirena) no centro estudado, cujo insersor possui um tubo de 4,8 milímetros, mais largo que o modelo de 4,4 milímetros comum na rede privada.

Além disso, o estudo identificou uma associação entre o uso prévio de antiespasmódicos e uma maior chance de dor moderada a severa. Contudo, os autores alertam que o desenho transversal da pesquisa não permite estabelecer uma relação de causalidade, podendo o uso desses fármacos refletir a administração em casos já considerados mais complexos.

No cenário internacional, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já atualizou suas recomendações para incluir a oferta rotineira de medicação para alívio da dor durante a colocação do DIU. Essa mudança reflete uma crescente conscientização global sobre a importância de um manejo mais humanizado e eficaz da dor em procedimentos ginecológicos. Nos Estados Unidos, o Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia (ACOG) também possui diretrizes que abordam a importância do manejo da dor.

Para mais informações sobre as diretrizes da OMS, você pode consultar o site oficial da Organização Mundial da Saúde.

Rumo a um Cuidado Mais Humanizado

O objetivo principal do estudo não é desestimular o uso do DIU, que é um método contraceptivo seguro e altamente eficaz, mas sim promover mudanças que melhorem a experiência das usuárias e ajudem a superar as barreiras relacionadas à dor. A pesquisadora Ana Luiza Savi ressalta a importância de “atualizar a diretriz brasileira para refletir níveis realistas de dor”, garantindo que as mulheres recebam um cuidado mais informado e compassivo.

A revisão das diretrizes do SUS e a implementação de práticas que contemplem o manejo adequado da dor são passos cruciais para assegurar que o acesso a métodos contraceptivos eficazes, como o DIU, seja uma experiência positiva e acessível para todas as mulheres, sem que o medo ou a experiência de dor se tornem um impedimento.

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