O Festival Folclórico de Parintins, um dos maiores espetáculos culturais do Brasil, foi palco de um incidente grave que levanta discussões sobre segurança, racismo e as condições de trabalho para jornalistas em grandes eventos. Marcelo Rocha, repórter do coletivo Mídia Ninja, relatou ter sido vítima de agressão física e ofensas de cunho racista enquanto cobria o evento na madrugada da última segunda-feira (29).
O episódio, que rapidamente ganhou repercussão, expõe a vulnerabilidade de profissionais da imprensa e a persistência do preconceito em espaços públicos, mesmo em celebrações de tamanha importância cultural. A situação escalou para a intervenção da equipe de segurança do festival, que, segundo Rocha, o removeu do local de forma violenta após ele ter solicitado apoio.
O incidente no Bumbódromo e a denúncia de Marcelo Rocha
Marcelo Rocha detalhou que o conflito teve início quando ele tentava filmar a entrada da cunhã-poranga do boi Garantido, a ex-BBB Isabelle Nogueira. Segundo seu relato, uma mulher, posteriormente identificada como Maria Rita de Souza, teria pedido para ele sair da frente de sua visão da apresentação. Em seguida, Rocha afirma ter sido agredido com um tapa no rosto e ofendido com termos racistas.
“Tomei um tapa gratuitamente. Nisso eu me viro para pegar o celular para registrar essa pessoa e novamente ela vem tentar me agredir, e começa a me chamar de ‘neguinho vagabundo’. Eu automaticamente começo a gritar: ‘Alguém pode chamar a polícia?’”, narrou o jornalista. O incidente teria ocorrido na área entre o fosso de imprensa e o espaço destinado a pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, onde Maria Rita de Souza estava, embora seu nome não constasse na lista de PCD.
Versões conflitantes e a atuação da segurança
A situação se agravou quando, ao buscar ajuda, Rocha alega ter sido tratado como o agressor. Ele descreveu que o chefe da segurança do Festival de Parintins, Hélio Aguiar, o teria abordado de forma agressiva. “O chefe da segurança me colocou como o algoz da situação. Ele retira a agressora da cena e desce até o fosso para me agredir. Ele começa a apertar meu braço esquerdo, me segura e chama mais seguranças para me segurar pelas pernas e me arrastam pelo Bumbódromo de Parintins”, afirmou Rocha.
Por outro lado, Maria Rita de Souza apresentou uma versão diferente dos fatos. Em declaração à Folha de S.Paulo, ela negou as acusações de racismo e agressão, alegando ser a vítima da situação. Maria Rita afirmou que pediu educadamente para o jornalista abaixar o celular e que ele teria começado a xingá-la e filmá-la. Ela também mencionou sua própria luta diária contra o preconceito, por ter um filho autista.
O chefe de segurança, Hélio Aguiar, por sua vez, declarou que, ao ser acionado, não tinha conhecimento de que Marcelo Rocha era jornalista, apesar de ele possuir credencial. Aguiar informou que Rocha apenas relatou ter levado um tapa, sem mencionar racismo. Ambos foram encaminhados à delegacia itinerante montada no local para o registro da ocorrência.
A relevância do Festival de Parintins e o impacto do incidente
O Festival de Parintins é um evento de projeção nacional e internacional, que celebra a cultura amazônica através da rivalidade entre os bois Garantido e Caprichoso. A presença de um jornalista de um coletivo como a Mídia Ninja sublinha a importância da cobertura independente e da diversidade de vozes na imprensa.
Incidentes como o relatado por Marcelo Rocha não apenas comprometem a imagem do festival, mas também acendem um alerta sobre a necessidade de protocolos de segurança mais claros e eficazes, que garantam a integridade física e moral de todos os presentes, especialmente dos profissionais que ali trabalham. A repercussão do caso levou o Governo do Amazonas e as associações culturais dos bois Garantido e Caprichoso a lamentarem publicamente o ocorrido, destacando a seriedade da denúncia.
Racismo e violência: um debate urgente
A denúncia de racismo no Festival de Parintins reacende um debate crucial sobre a persistência do preconceito racial na sociedade brasileira. A fala de Marcelo Rocha, que expressou cansaço diante de “tanta violência” e a dificuldade de “conseguir respirar” e “viver um evento” devido a situações de discriminação, ressoa com a experiência de muitos indivíduos negros no país.
O caso sublinha a importância de que denúncias de racismo sejam tratadas com a devida seriedade e rigor, com investigações transparentes e ações concretas para combater essa chaga social. A visibilidade de um evento como o Festival de Parintins pode e deve ser utilizada para promover a conscientização e a valorização da diversidade, garantindo que a cultura seja um espaço de inclusão e respeito para todos.
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