Um trecho do asfalto da recém-inaugurada Avenida Liberdade, em Belém, capital do Pará, cedeu neste final de semana, reacendendo o debate sobre a qualidade das obras públicas e a fiscalização. A infraestrutura, que custou R$ 410 milhões aos cofres públicos, foi construída por um consórcio de empresas que inclui a JAC Engenharia, companhia que tem como sócia a mulher do deputado federal Antônio Doido (MDB-PA), figura central em uma investigação da Polícia Federal por corrupção e lavagem de dinheiro.
O incidente na Avenida Liberdade não é apenas um problema de engenharia, mas um sintoma de questões mais profundas que envolvem o uso de recursos públicos e a integridade de processos licitatórios no estado. A obra, que deveria ser um marco de desenvolvimento para a região, especialmente em vista da COP 30, agora se torna um símbolo de controvérsia e suspeitas.
Conexões políticas e o esquema de fraude em licitações
A ligação da JAC Engenharia com o deputado federal Antônio Doido e sua esposa coloca a obra da Avenida Liberdade sob um escrutínio ainda maior. O casal foi alvo de uma operação da Polícia Federal em dezembro do ano passado, que investiga um sofisticado esquema de corrupção e lavagem de dinheiro. Segundo as apurações, as empresas ligadas a eles seriam utilizadas para desviar verbas públicas através de fraudes em licitações do governo estadual.
Os investigadores apontam que parte dos valores desviados era sacada em espécie, possivelmente com o objetivo de financiar campanhas eleitorais, configurando um ciclo vicioso de corrupção que compromete a probidade administrativa. Durante a operação da PF, um episódio chamou a atenção: dois celulares foram jogados da janela do apartamento do parlamentar, um ato que levanta suspeitas sobre a tentativa de ocultar provas.
A controvérsia da Avenida Liberdade: custo, prazos e impactos
A Avenida Liberdade, com seu custo exorbitante de R$ 410 milhões, foi concebida como uma obra estratégica para a infraestrutura de Belém, com a expectativa de ser entregue para a COP 30 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas), evento que aconteceu na capital paraense em 2025. O contrato para a construção foi assinado em junho de 2024, e a obra foi concluída em abril deste ano. A cronologia, conforme apresentada, sugere um projeto de grande envergadura com prazos apertados, culminando em um desfecho que agora é questionado.
Além das suspeitas de fraude e da falha estrutural, a construção da via já havia sido alvo de fortes críticas por parte de ambientalistas. Eles denunciaram danos socioambientais significativos na região, com ribeirinhos relatando a destruição de seus meios de subsistência. Essas denúncias adicionam uma camada de complexidade e preocupação ao projeto, que deveria conciliar desenvolvimento com sustentabilidade.
Reação oficial e o silêncio do deputado
Diante do colapso do asfalto, o governo do Pará, por meio da Secretaria de Infraestrutura e Logística (Seinfra), emitiu um comunicado. A secretaria informou que o consórcio responsável pela construção da avenida é composto por cinco construtoras de diversos estados. A Seinfra reconheceu a necessidade de correções em um trecho de aproximadamente 150 metros da Avenida Liberdade, identificada durante monitoramento e inspeções preventivas.
Ainda segundo a secretaria, os custos das intervenções necessárias serão integralmente bancados pelas empresas do consórcio, sem qualquer ônus adicional para o estado. A coluna jornalística tentou contato com o deputado federal Antônio Doido para obter um posicionamento sobre o ocorrido e as investigações, mas não obteve sucesso.
A fiscalização de obras públicas e o impacto na confiança
O caso da Avenida Liberdade em Belém serve como um alerta sobre a importância da fiscalização rigorosa em todas as etapas de obras públicas, desde a licitação até a entrega e manutenção. Projetos de grande porte, especialmente aqueles vinculados a eventos de repercussão internacional como a COP 30, exigem transparência e excelência para garantir que os recursos públicos sejam aplicados de forma eficiente e ética.
A falha estrutural, somada às acusações de corrupção e aos impactos ambientais, mina a confiança da população nas instituições e na capacidade do poder público de entregar infraestrutura de qualidade. A sociedade espera respostas claras e ações efetivas para que casos como este não se repitam, e que os responsáveis sejam devidamente responsabilizados.
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