Inaugurado com a promessa de ser um marco na assistência a crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista (TEA) na capital paulista, o Centro TEA, iniciativa da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), enfrenta sérios questionamentos. Documentos recentes apontam que a unidade, localizada na zona norte de São Paulo, não apenas descumpriu metas cruciais de atendimentos individuais, mas também operou com equipes abaixo da carga horária prevista em contrato, comprometendo a qualidade e a abrangência dos serviços oferecidos.
autismo: cenário e impactos
As falhas, detalhadas em relatórios elaborados pela Fundação Getulio Vargas (FGV), organização contratada pela prefeitura para monitorar a execução dos serviços, lançam uma sombra sobre a eficácia de um equipamento vital para famílias que buscam apoio especializado. O período de avaliação, compreendido entre outubro de 2025 e março de 2026, abrange metade do tempo de funcionamento do centro, evidenciando que os problemas não são isolados, mas persistentes.
Desafios no Atendimento Individualizado e o Impacto nas Famílias
Um dos pontos mais críticos revelados pelos relatórios é o baixo cumprimento das metas de sessões individuais. A organização social Lar Mãe do Divino Amor, responsável pela gestão do Centro TEA, realizou, em média, apenas 26,6% dos atendimentos individuais previstos em contrato. Isso significa que, de 1.980 sessões esperadas ao longo de seis meses, apenas 526 foram efetivamente entregues.
Essa lacuna é alarmante, especialmente considerando a importância da abordagem individualizada no tratamento do TEA. A pediatra Raquel del Monde ressalta a necessidade de um planejamento terapêutico único para cada criança. “Não existe um protocolo geral para todos”, afirma a especialista, destacando que as necessidades variam conforme o perfil cognitivo e o estágio de desenvolvimento. Enquanto algumas crianças demandam mais fonoaudiologia, outras precisam de treinamento de habilidades sociais. A ausência de um plano individualizado e sua execução compromete diretamente o benefício que cada criança poderia obter do tratamento.
O contrato com a organização social prevê um repasse mensal de R$ 911.098,14, destinado a cobrir tanto os atendimentos individuais quanto as atividades coletivas, como práticas de vida diária, atividades na piscina, culinária, música e jardinagem. A disparidade entre o investimento e a entrega dos serviços individuais levanta questionamentos sobre a alocação de recursos e a fiscalização do cumprimento contratual.
Equipes Reduzidas e Inconsistências na Prestação de Contas
Além do descumprimento das metas de atendimento, os documentos da FGV também apontam para problemas na composição das equipes. A carga horária dos psicólogos, profissionais essenciais para os atendimentos individuais, não condizia com o previsto em contrato. As sessões individuais, que deveriam durar no mínimo 50 minutos, são descritas como “balizadores para a análise da evolução e revisão do PIA da pessoa com TEA” (Plano Individualizado de Atendimento), reforçando a gravidade da falta de profissionais ou da subutilização dos existentes.
Os relatórios indicam ainda inconsistências nas prestações de contas da organização social, um aspecto fundamental para a transparência e a boa gestão dos recursos públicos. Tais irregularidades, somadas à operação com equipes reduzidas, sugerem desafios na governança e na capacidade de entrega da entidade contratada, impactando diretamente a confiança no modelo de gestão por organizações sociais.
A Posição da Prefeitura e a Relevância do Centro TEA
Procurada, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) informou que os dados apresentados são preliminares. A prefeitura citou que o Centro TEA já realizou mais de 300 mil acompanhamentos, englobando diversas modalidades de serviço. A organização social Lar Mãe do Divino Amor, por sua vez, optou por não comentar as informações, direcionando a reportagem para a prefeitura.
A resposta da administração municipal, embora mencione um volume total de atendimentos, não aborda diretamente a falha específica no cumprimento das metas de sessões individuais, que são consideradas pilares para o desenvolvimento das pessoas com TEA. A relevância do Centro TEA para a cidade de São Paulo é inegável, dado o crescente número de diagnósticos de autismo e a carência de serviços especializados e acessíveis. Iniciativas como esta são cruciais para oferecer suporte às famílias, promover a inclusão e garantir o desenvolvimento pleno de crianças e adolescentes com TEA.
A fiscalização rigorosa e a garantia do cumprimento das metas contratuais são essenciais para que o Centro TEA cumpra sua missão e se torne, de fato, um modelo de excelência na atenção ao autismo. A sociedade e as famílias afetadas esperam que as falhas sejam corrigidas e que o investimento público se traduza em atendimento de qualidade e resultados concretos para aqueles que mais precisam.
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