Em um cenário político baiano aquecido, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) fez uma veemente defesa pública do senador Jaques Wagner (PT), pré-candidato à reeleição, durante uma agenda conjunta em Barreiras, no oeste da Bahia. O evento, realizado na última sexta-feira, 26 de junho de 2026, marcou a primeira aparição dos dois líderes petistas juntos desde que Wagner se tornou alvo de uma operação da Polícia Federal. A manifestação de apoio do governador ocorre em um momento delicado para o senador, que recentemente deixou a liderança do governo no Senado Federal.
Com a voz embargada, Jerônimo Rodrigues não poupou palavras ao exaltar a trajetória política de Jaques Wagner e expressar confiança em sua inocência. A declaração do governador ressoa como um escudo político em meio às investigações, buscando solidificar a imagem de Wagner diante do eleitorado e da militância. A retórica utilizada, que sugere que o “erro” de Wagner seria “cuidar de pobre”, busca transformar a narrativa da investigação em uma questão de embate ideológico e social, uma tática comum em momentos de crise política e pré-eleitorais.
Apoio irrestrito e a narrativa política em torno de Jaques Wagner
O discurso de Jerônimo Rodrigues em Barreiras foi mais do que uma simples demonstração de solidariedade; foi um endosso político estratégico. O governador afirmou categoricamente: “É o primeiro ato público com Wagner depois do que quiseram fazer com ele. Ele esteve lá anteontem, conversou com o amigo dele, amigo nosso, o Lula, e se acertou porque, para além de um cargo de liderança, está o Brasil e a Bahia. E nós vamos mostrar, nós vamos provar que, se você tem um erro na vida, para eles o erro é cuidar de pobre e dedicar a sua vida. Nós confiamos em você.” Esta fala não apenas reforça a lealdade partidária, mas também tenta descredibilizar a operação policial, sugerindo uma motivação política por trás dela.
A defesa pública de um aliado sob investigação é um movimento calculado no tabuleiro político, especialmente com as eleições de 2026 no horizonte. Jaques Wagner, figura histórica do PT na Bahia e no cenário nacional, tem um capital político significativo. A tentativa de associar as acusações a uma perseguição por “cuidar de pobre” visa mobilizar a base eleitoral e criar uma contra-narrativa que possa mitigar os danos à reputação do senador e, por extensão, do próprio partido, impactando a percepção pública sobre a lisura das investigações.
Detalhes da Operação Compliance Zero e as acusações contra o senador
A operação da Polícia Federal, batizada de Compliance Zero, foi deflagrada na semana anterior ao evento em Barreiras e investiga suspeitas de corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Além de Jaques Wagner, a investigação mirou Augusto Lima e Eduardo Sodré Martins, este último enteado de Wagner e secretário no governo de Jerônimo Rodrigues, o que adiciona uma camada de complexidade à situação política e familiar.
Os investigadores, sob a relatoria do ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal (STF), identificaram uma série de transações financeiras e benefícios que levantaram suspeitas. Entre as evidências citadas estão um pagamento de R$ 3,5 milhões de uma empresa ligada a Augusto Lima ao “núcleo familiar” de Wagner, além de um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões que o senador teria recebido de Lima. A PF também apura viagens gratuitas em jatinhos associados ao Banco Master, de Daniel Vorcaro, e ingressos para um show de uma “cantora internacional” em Los Angeles, em 2023.
Durante as buscas em endereços ligados a Jaques Wagner, agentes da Polícia Federal apreenderam US$ 55 mil e 33 mil euros, montante que, em valores atuais, soma aproximadamente R$ 471 mil. A apreensão de moeda estrangeira em espécie é um ponto sensível em investigações de lavagem de dinheiro e corrupção, frequentemente gerando grande repercussão midiática e social, como o próprio senador viria a reclamar publicamente.
A saída da liderança e a reação de Jaques Wagner
A pressão decorrente da operação levou Jaques Wagner a deixar o cargo de líder do governo no Senado na quarta-feira, 24 de junho. Embora tenha resistido inicialmente à ideia, o senador afirmou que a saída ocorreu por “comum acordo” após uma reunião de cerca de duas horas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A decisão, embora apresentada como consensual, reflete a necessidade de proteger a imagem do governo federal e evitar desgastes maiores em meio às investigações em curso.
Um dia após sua saída da liderança, Jaques Wagner concedeu entrevista à Folha, onde expressou seu descontentamento com a atuação da Polícia Federal. Ele reclamou especificamente da divulgação da foto com as cédulas de moeda estrangeira apreendidas em seu apartamento em Brasília, classificando o ato como uma “patacoada de dinheiro em cima da cama”. Essa crítica à forma como a operação foi conduzida e divulgada sugere uma tentativa de questionar a legitimidade do processo investigatório e a imparcialidade das autoridades, levantando um debate sobre a espetacularização de operações policiais.
Implicações políticas e o futuro da investigação
A defesa enfática de Jerônimo Rodrigues e a reação de Jaques Wagner evidenciam a complexidade do cenário político e jurídico. As investigações da Operação Compliance Zero prosseguem, e seus desdobramentos podem ter um impacto significativo na carreira política do senador e nas articulações para as eleições de 2026 na Bahia. A capacidade de Wagner de provar sua inocência, como prometido pelo governador, será crucial para sua sobrevivência política e para a manutenção da força do PT no estado, que historicamente tem forte presença na região.
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