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Vereador de São Paulo é preso em operação que apura elo com PCC e lavagem de dinheiro em empresa de ônibus

Operação do Deic e Gaeco mira empresa de ônibus e vereador de SP
Operação do Deic e Gaeco mira empresa de ônibus e vereador de SP

O vereador paulistano Senival Pereira de Moura (PT) foi detido em uma operação conjunta do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo. A ação, deflagrada nesta quinta-feira (24), coloca o parlamentar no centro de um suposto esquema de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC) por meio da empresa de ônibus Transunião Transportes S.A.

A investigação que culminou na prisão do vereador tem um ponto de partida dramático: o assassinato de Adauto Soares Jorge, ex-diretor da Transunião, ocorrido há mais de quatro anos. Este crime, inicialmente tratado como uma execução, desvendou uma complexa rede de movimentações financeiras e controle informal que, segundo as autoridades, beneficiava a facção criminosa.

Um Homicídio Revelador e o Início da Investigação

Em 4 de março de 2020, Adauto Soares Jorge foi brutalmente assassinado a tiros no estacionamento de uma padaria no bairro do Lajeado, na Zona Leste da capital paulista. A morte do então diretor-presidente da Transunião Transportes S.A. desencadeou uma série de diligências que transformaram a apuração de um homicídio em uma complexa investigação sobre crime organizado.

A apreensão do celular e de diversos pen drives de Adauto, encontrados com ele no momento do crime, foi crucial. A análise desses materiais revelou documentos e dados que, para a Polícia Civil e o MP-SP, extrapolavam as circunstâncias do assassinato. Os arquivos indicavam uma estrutura paralela de controle e movimentação financeira dentro da empresa de transporte.

Entre os achados estavam planilhas intituladas “Contato” e “Contato 3”, que categorizavam ônibus da frota como “cooperado” e “cooperado oficial”. Para os investigadores, essa distinção sugeria que parte dos veículos estava registrada em nome de terceiros, enquanto os rendimentos eram direcionados aos verdadeiros controladores. Mensagens trocadas por Adauto também apontavam para uma instância decisória informal, com repasses financeiros e pagamentos a indivíduos sem vínculo societário aparente com a Transunião.

A Teia do PCC e o Controle Informal do Vereador

O cruzamento dessas informações levou os investigadores à hipótese de que a Transunião era utilizada para lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial em benefício de integrantes do PCC. O vereador Senival Moura, que já havia sido citado em apurações anteriores relacionadas à empresa, emergiu como figura central.

As investigações sustentam que o parlamentar exercia o controle de fato da Transunião, mesmo sem aparecer formalmente em seu quadro societário. Mensagens analisadas mostram que movimentações financeiras informais e repasses de grandes quantias, como pagamentos semanais de R$ 70 mil para “acertar os cara”, dependiam de sua anuência ou intervenção prévia. Nas comunicações entre os operadores do esquema, Senival era frequentemente identificado por apelidos como “presidente”, “véio”, “velhinho” ou simplesmente “vereador”.

Planilhas internas também indicam que o parlamentar aparecia como “cooperado oficial” de pelo menos 13 ônibus da frota. Essa expressão, segundo os investigadores, identificava o verdadeiro beneficiário econômico dos veículos, cujos rendimentos eram sistematicamente desviados para o vereador, apesar de estarem registrados em nome de terceiros ou da própria empresa.

Trajetória Política e Antecedentes do Parlamentar

Senival Pereira de Moura cumpre seu sexto mandato na Câmara Municipal de São Paulo, onde ocupa posições de destaque como primeiro-secretário da Mesa Diretora e presidente da Comissão de Trânsito, Transporte e Atividade Econômica. Sua trajetória política na Zona Leste foi construída a partir de sua atuação com antigos operadores de transporte alternativo, os “perueiros”, durante o processo de regularização do setor no início dos anos 2000.

A relação do vereador com o transporte de passageiros é ainda mais antiga, remontando à década de 1970, quando ele explorava linhas clandestinas com veículos Kombi. No entanto, o nome de Senival Moura não é novidade em investigações envolvendo a Transunião. Em 2022, o g1 revelou que ele já era investigado por suspeita de envolvimento na morte de Adauto Soares Jorge. Naquela ocasião, a Polícia Civil prendeu dois suspeitos e apreendeu 13 ônibus da companhia.

Motivação do Crime e o “Perdão” da Facção

O Ministério Público sustenta que o assassinato de Adauto Soares Jorge foi motivado por uma “quebra de confiança” financeira. Integrantes da facção teriam descoberto que Adauto estaria desviando valores da Transunião para subsidiar um “caixa dois” para a campanha de reeleição de Senival Moura em 2020, em detrimento dos repasses que deveriam ser feitos ao PCC.

Diante disso, o operador Leonel Martins, conhecido como “Cabeça Branca”, teria sido incumbido de resolver a questão por meio de um “debate”, termo usado para os tribunais do crime da facção, que resultou na ordem de execução. Relatórios de inteligência financeira apontam que tanto Adauto quanto Senival teriam sido “condenados à morte” pelo PCC. Contudo, o vereador teria sido “perdoado” em razão de sua influência política e capacidade financeira de ressarcir parte do prejuízo apontado pela facção. Como contrapartida a esse “perdão”, Senival teria sido compelido a concordar com a morte de Adauto, seu próprio representante.

Patrimônio Suspeito e o Núcleo Familiar Envolvido

As apurações da operação indicam que o esquema utilizava familiares e pessoas de confiança para ocultar patrimônio e interesses econômicos ligados ao vereador. Os autos citam a participação da esposa de Senival, Maria de Lourdes Andrade de Moura, de seus filhos Ítalo e Vitor Andrade de Moura, e de seu irmão, Rubens Pereira de Moura, em movimentações e registros societários suspeitos. Além do núcleo familiar, o assessor parlamentar Adão Lino dos Santos e o motorista Devanil Sousa Nascimento, o “Sapo”, são apontados como peças operacionais que asseguravam o controle fático do vereador sobre a empresa e suas subsidiárias.

Relatórios de inteligência financeira mencionados na investigação apontam que Senival movimentou cerca de R$ 4,39 milhões entre 2019 e 2022. Os investigadores indicam uma diferença superior a R$ 2,4 milhões entre os valores movimentados e os rendimentos oficialmente declarados pelo vereador. Os autos também mencionam a posse de imóveis de alto padrão, entre eles um apartamento na Vila Madalena, na Zona Oeste da capital, e uma propriedade rural em Extrema, no sul de Minas Gerais.

Até a última atualização desta reportagem, a defesa de Senival Moura não havia se manifestado sobre a nova operação. Em 2022, o vereador afirmou ser inocente, declarando ter sido surpreendido pela ação policial e que estava à disposição da Justiça.

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