A Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP) anunciou nesta quarta-feira (24) a suspensão do exercício profissional da advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra Santos. A medida, de efeito imediato, impede que Deolane atue na advocacia enquanto enfrenta sérias acusações que a levaram à prisão preventiva.
Desde 22 de maio, Deolane está detida no Pavilhão Especial da Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, no interior de São Paulo. Ela é investigada por suspeita de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), associação com o tráfico de drogas e de fazer parte da facção criminosa, um cenário que coloca em xeque sua carreira e sua imagem pública.
Suspensão da OAB e o Processo Disciplinar
A decisão da OAB-SP de suspender Deolane Bezerra reflete a gravidade das acusações que pesam contra a advogada. Conforme a legislação, a suspensão inicial pode durar 90 dias, com a possibilidade de prorrogações sucessivas até o limite de 360 dias. Durante esse período, o Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-SP conduzirá o julgamento definitivo do caso.
A entidade ressaltou seu compromisso em apurar todas as infrações que chegam ao seu conhecimento, seja por representação formal ou por fatos divulgados publicamente. Os processos disciplinares, como este, tramitam sob sigilo, conforme o artigo 72, § 2º, da Lei nº 8.906/94, garantindo a confidencialidade das investigações internas.
Batalha Judicial no Superior Tribunal de Justiça
A situação legal de Deolane Bezerra ganhou destaque nacional com a análise de seu pedido de liberdade pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em 9 de maio, a Quinta Turma do STJ negou o habeas corpus da influenciadora, que cumpre prisão preventiva desde 21 de maio.
Os ministros Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik, Maria Marluce Caldas e Messod Azulay Neto entenderam que não cabia uma intervenção do STJ naquele momento, uma vez que outros pedidos de liberdade para Deolane ainda estavam pendentes de análise em tribunais de instâncias inferiores. A defesa da advogada argumentou que não havia risco concreto à ordem pública, à instrução criminal ou à aplicação da lei penal, e que as provas já estavam em poder das autoridades. Além disso, alegaram que a prisão preventiva deveria ser substituída por domiciliar, já que Deolane é mãe de uma criança de 9 anos e única responsável pelos cuidados.
O ministro Ribeiro Dantas, relator do caso, destacou a gravidade dos fatos e afirmou que, embora Deolane seja mãe de menor de 12 anos, isso não garante automaticamente a liberdade ou prisão domiciliar. Ele reforçou que a decisão que autorizou a prisão estava devidamente fundamentada e que não havia elementos para uma revisão imediata pelo STJ, que deveria aguardar a análise das instâncias responsáveis. A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, defendeu a manutenção da prisão, citando a possibilidade de reiteração criminosa e a utilização de pessoas em situação de vulnerabilidade por organizações criminosas.
As Acusações e a Operação Vérnix
O relatório da polícia aponta que Deolane Bezerra movimentou R$ 13,6 milhões em suas contas pessoais entre 2018 e 2022, enquanto outros R$ 14 milhões transitaram por três de suas empresas. Para os investigadores, a origem desses recursos é “espúria”, e foram identificadas empresas fantasmas em nome da influenciadora, localizadas em cidades do interior paulista, próximas ao presídio de Presidente Venceslau, dividindo o mesmo endereço com dezenas de outras firmas de fachada.
Deolane Bezerra foi indiciada pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro pela Polícia Civil de Presidente Venceslau (SP) no âmbito da Operação Vérnix. O inquérito detalha que o grupo alvo da operação continuava em atividade no momento das prisões, promovendo a reestruturação de empresas supostamente utilizadas para ocultar patrimônio e recursos financeiros. Os investigadores também identificaram o uso de novas pessoas jurídicas, movimentações patrimoniais recentes e mecanismos alternativos para circulação de valores, incluindo operações com ativos virtuais. A polícia solicitou o sequestro cautelar de veículos, a ampliação de bloqueios patrimoniais e a custódia judicial de joias e relógios apreendidos.
Um Histórico de Encontros com a Justiça
A atual prisão e suspensão da OAB não são os primeiros reveses judiciais de Deolane Bezerra. Sua trajetória tem sido marcada por diversas investigações e processos:
- Busca e apreensão por lavagem em empresa de apostas: A Polícia Civil de São Paulo cumpriu mandados de busca e apreensão na mansão de Deolane em Alphaville, investigando crimes contra a economia popular e lavagem de dinheiro relacionados a uma empresa de apostas esportivas que a patrocinava. Dois carros de luxo foram apreendidos na ocasião.
- Investigação por foto com colar de chefe do tráfico: Deolane virou alvo de inquérito da Polícia Civil do Rio de Janeiro após publicar fotos no Baile da Disney, no Complexo da Maré, usando o cordão de ouro do traficante Thiago da Silva Folly, o “TH”, chefe do Terceiro Comando Puro (TCP). A polícia apurou uma possível associação ao tráfico de drogas.
- Primeira prisão na Operação Integration: Em setembro de 2024, ela foi presa preventivamente em Recife (PE) pela Operação Integration, que investigava um esquema de lavagem de dinheiro e jogos de azar ilegais que movimentou cerca de R$ 2 bilhões. Bens de luxo da influenciadora foram sequestrados. No início de 2026, a Justiça Federal assumiu a competência do caso, anulando os atos estaduais anteriores.
- Alvo da PF na Operação Narco Fluxo: Há cerca de um mês, Deolane entrou na mira de uma megaoperação da Polícia Federal, a Narco Fluxo, investigada por suposta participação em uma rede que utilizava o meio artístico e plataformas digitais para lavar dinheiro oriundo do tráfico.
Perspectivas e Desdobramentos Futuros
A defesa de Deolane Bezerra nega qualquer envolvimento com o crime organizado ou com dinheiro de origem ilícita, afirmando que todos os seus recebimentos são declarados e justificados. O advogado Aury Lopes Jr. chegou a classificar a prisão como “midiática” e “excessiva”, argumentando que não há risco de fuga ou de comprometimento das provas, que seriam contábeis e fiscais.
Com a suspensão da OAB e as múltiplas investigações em andamento, o futuro profissional e pessoal de Deolane Bezerra permanece incerto. O caso continua a ser acompanhado de perto pela Justiça e pela opinião pública, com desdobramentos que prometem ser complexos e demorados.
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