Dezenas de milhares de pessoas tomaram a Avenida Paulista, em São Paulo, na tarde de 21 de junho de 2026, para a 18ª Marcha da Maconha. O ato, que se concentrou em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), teve como pauta central a demanda pela legalização da planta no país, acompanhada de fortes críticas aos efeitos sociais e jurídicos da atual política de criminalização.
Os manifestantes, que representavam um perfil diverso da sociedade, desde jovens adultos a idosos e famílias com crianças, uniram vozes para denunciar como a proibição da cannabis sobrecarrega o sistema prisional brasileiro e perpetua o preconceito contra o uso medicinal e terapêutico, uma realidade que já beneficia milhares de pacientes, incluindo crianças, sob rigorosa prescrição médica.
O grito pela legalização e seus argumentos
A Marcha da Maconha não é apenas um protesto, mas um espaço de articulação para apoiadores, ativistas e organizações que militam pela regulamentação da cannabis. Na Avenida Paulista, a principal via da capital paulista, camisetas e cartazes coloridos expunham as restrições enfrentadas por pacientes que dependem de medicamentos à base da planta, além de mensagens que ampliavam o debate social, como “Maconha não mata, mas o feminicídio, sim”, sublinhando a percepção de prioridades distorcidas na agenda pública.
Os participantes enfatizaram que a proibição não apenas falha em conter o consumo, mas alimenta um mercado ilegal violento, com graves consequências para a segurança pública e a vida de milhares de cidadãos. A legalização, por outro lado, é vista como um caminho para o controle estatal, a arrecadação de impostos e a desoneração do sistema judiciário e prisional, que hoje lida com um grande volume de casos relacionados a pequenos delitos de drogas.
O potencial medicinal e os desafios do acesso
Um dos pilares do movimento pela legalização da maconha é o reconhecimento e a ampliação do acesso ao uso medicinal. Embora a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tenha avançado na aprovação do cultivo de cannabis por empresas e na regulamentação de produtos, o caminho para pacientes ainda é árduo. Dados do anuário da Kaya Mind, uma das principais organizações brasileiras focadas em dados sobre o segmento, indicam que cerca de 50 mil pessoas no país declaram tratar-se com produtos à base de Cannabis sativa.
No entanto, este número é apenas a ponta do iceberg. Um levantamento da Agência Brasil, de novembro de 2024, já apontava que o Brasil havia atingido a marca de 672 mil pacientes que se tratam com cannabis. A discrepância entre os dados reflete a dificuldade de acesso e a subnotificação, impulsionadas pela falta de aceitação da planta por grande parte da sociedade. Essa resistência social e política impede o avanço de discussões legislativas e, na prática, restringe o acesso a itens canábicos principalmente a pessoas com alto poder aquisitivo, capazes de arcar com os custos de importação.
Vencendo o estigma: histórias e perspectivas
A diversidade dos participantes da marcha, que incluía idosos, pais e mães com seus filhos, e jovens adultos, demonstra que o debate sobre a legalização da maconha transcende estereótipos. A professora de educação infantil Stephanie Oliveira, por exemplo, participou da mobilização pela primeira vez ao lado do namorado. Sua motivação é pessoal: sua mãe, de 47 anos, utiliza cannabis medicinal para melhorar o sono e aliviar dores nas costas.
Stephanie compartilhou a hesitação inicial em expor sua participação nas redes sociais, temendo o julgamento de colegas de trabalho. Contudo, a convicção de que o movimento discute direitos fundamentais a fez superar o receio. “Não é um assunto tão aberto e eu não converso muito sobre isso na escola com as minhas colegas de trabalho, sendo que a maioria me segue no Instagram. Cheguei a pensar se deveria postar, mas considero o movimento importante. Vou publicar independentemente de julgamentos, porque é uma causa que eu apoio, mesmo não fumando”, afirmou, ilustrando a barreira do preconceito que muitos ativistas ainda enfrentam.
Um levantamento da Bliss Data 2026 ainda reforça a mudança de perfil dos usuários, indicando que mulheres de meia-idade e início da velhice lideram o mercado de cannabis medicinal no país, desmistificando a imagem tradicionalmente associada ao consumo da planta.
A 18ª Marcha da Maconha em São Paulo reforça a crescente pressão social por uma revisão das políticas de drogas no Brasil. O debate, que envolve saúde pública, justiça social e direitos individuais, continua em pauta, exigindo atenção e aprofundamento. Para acompanhar os desdobramentos desta e de outras notícias relevantes, continue conectado ao M1 Metrópole, seu portal multitemático de informação de qualidade, sempre com foco em conteúdo atualizado e contextualizado.